Cinco mulheres são agredidas por dia em Niterói, diz estudo

24/11/2014 11:21

Às vésperas do Dia Internacional da Não Violência Contra a Mulher, registros oficiais mostram que há muito que melhorar

Gustavo Schmitt | O Globo

NITERÓI - Grávida de três meses, N. tentou se proteger do ex-marido, que a ameaçava com uma corrente de ferro. Em vão. O agressor a empurrou no chão e chutou-lhe a barriga duas vezes. Ela perdeu o bebê. O ataque aconteceu em 2011, mas ainda provoca choro convulsivo na vítima, que fugiu de casa dois anos depois, já que o ex-companheiro, com quem viveu por cinco, não aceitava a separação:

— Depois de perder esse bebê acabei engravidando de novo e tivemos uma filha, que sobreviveu por sorte. Quando estava grávida de seis meses, ele me arrastou pelos cabelos na frente dos vizinhos e me deu socos no rosto. Sofri agressões terríveis, com ferro, mangueira de plástico, cinto... Eu gritava muito, mas as pessoas tinham medo de me ajudar porque ele era muito violento — conta N., que condicionou sua entrevista, assim como as outras personagens desta reportagem, a não divulgação de qualquer detalhe que pudesse identificar o seu paradeiro, como o nome da favela em que mora na Zona Norte de Niterói.

N. perdeu o primeiro filho após ser agredida com uma corrente e chutes do ex-marido - Gustavo Stephan

O drama de N. — que recebe tratamento psicológico e de assistentes sociais num dos núcleos da ONG Movimento de Mulheres, de atendimento gratuito às vítimas por meio de um convênio com o governo estadual — engrossou as estatísticas de vítimas de violência, segundo o Dossiê Mulher 2014. Dados da pesquisa, feita pelo Instituto de Segurança Pública (ISP), revelam que, em média, cinco mulheres são agredidas por dia em Niterói e que quase metade dos ataques parte de companheiros, parentes ou conhecidos. O número equivale a 1.954 registros de lesão corporal dolosa em 2013. Às vésperas do Dia Internacional da Não Violência Contra a Mulher, nesta terça-feira, os registros oficiais comprovam que muito ainda precisa ser melhorado.

CRESCIMENTO DE HOMICÍDIOS DOLOSOS

Os dados revelam ainda que os casos de homicídios dolosos contra as mulheres dobraram na cidade: subiram de oito em 2012 para 16 no ano passado. Os registros de estupro também tiveram alta: de 122 registros em 2011 para 188 em 2013, o equivalente a um crescimento de 54%.

Ainda segundo a pesquisa do ISP, vítimas do sexo feminino responderam por 82% dos casos de estupro e 63% de lesão corporal dolosa ocorridos no estado, no ano passado.

A violência contra mulheres é ainda mais grave na vizinha São Gonçalo. De acordo com o Dossiê Mulher, a Área Integrada de Segurança Pública (Aisp) do 7º BPM (São Gonçalo) figura em terceiro lugar no estado entre os crimes de lesão corporal dolosa contra mulheres, com oito agressões diárias ou 2.949 registros em 2013.

Moradora de São Gonçalo, E., de 53 anos, sofreu violência física e psicológica por 12 pelo ex-companheiro. Só decidiu se separar quando descobriu que seus três filhos também eram vítimas do agressor, que os violentava sexualmente:

— Ele não permitia que eu trabalhasse, tampouco deixava que saísse para comprar roupas ou comida. Também tentava impedir as crianças de estudarem. Tinha ciúmes de tudo. Eu sentia medo. Só passei a ter coragem quando o laudo de corpo de delito na delegacia comprovou que meus filhos tinham sido violentados.

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