Com crise, América Latina pode ter carro menos moderno, diz chefe da PSA

03/10/2014 10:10

Brasileiro é tão exigente com tecnologia quanto europeu, afirma Tavares.
Mas investimentos dependem de estabilidade do mercado.

Luciana de Oliveira | G1, em Paris - A jornalista viajou a convite da Anfavea

A baixa nas vendas de carros na América Latina, onde o Brasil tem o maior mercado, pode levar a região a perder oportunidades de investimento ou ter produtos menos modernos, disse o presidente-executivo da PSA Peugeot Citroën, Carlos Tavares, na última quinta-feira (2), no Salão de Paris. O português, que assumiu o comando mundial do grupo neste ano, ainda em meio a uma grave crise, reforçou a necessidade de compromisso com a rentabilidade.

“Não há uma data específica (para novos investimentos). Há um fluxo de projetos, carros novos, tecnologias novas, oportunidades novas”, explicou. Tavares disse que já foi aprovada uma estratégia para o mercado latinoamericano, que não será comunicada para não municiar os concorrentes, mas que vale a regra de que, ao surgir uma nova oportunidade, deve ser comprovado o potencial de rentabilidade do produto ou da tecnologia nessa região.

"Se demonstrar, muito bem, faz. Se não, essa oportunidade passa e se fica à espera da seguinte", resumiu. "A questão da América Latina é: qual é a rapidez com que a situação (de crise) vai durar, para que não se percam muitas dessas oportunidades."

Tavares apontou que o Brasil “não é um mercado emergente” no que diz respeito à exigência de novas tecnologias nos carros, mas poderá sofrer com a volatilidade do mercado.

“Temos que ter a compreensão de que os produtos introduzidos (no país) devem ter nível de tecnologia idêntico ao mercado chinês, ao mercado europeu. O que torna as coisas mais complicadas é que é preciso que haja uma estabilidade do mercado, uma situação monetária que nos dê uma justificativa de que essa decisão faça sentido”, disse o CEO.

“E aí é que está o risco da América Latina: se essas condições não forem respeitadas, obviamente os produtos que vão ser fabricados na região vão perder um pouco seu avanço, porque ninguém vai encontrar condições de investir nas novas tecnologias.”

Ajustes na produção

Tavares falou ainda sobre a possibilidade de ajustes na produção na América Latina, mas não anunciou nenhuma nova medida. “Obviamente, se vendemos menos, vai ter que haver um ajuste das nossas estruturas, o que é lógico para que a empresa possa sobreviver e também para proteger a grande maioria de nossos empregados”, afirmou, citando o tempo de abertura das fábricas e a quantidade de automóveis produzidos.

“Se há mais automóveis do que clientes, esses carros serão vendidos por preços não aceitáveis do ponto de vista da rentabilidade ou ficam tempo demais à espera dos clientes, o que também não é bom para a qualidade dos automóveis.”Desde o início do ano, a fábrica da PSA em Porto Real (RJ) opera com um turno a menos. E um Plano de Demissão Voluntária (PDV) aberto neste ano teve a adesão de 650 trabalhadores, segundo o presidente do grupo na América Latina, Carlos Gomes, que diz não haver plano de retomada do terceiro turno por ora.

Tavares reforçou que a empresa pretende se manter na região. “Nós estamos na América Latina para ficar, é um compromisso muito grande da nossa empresa.” O CEO quer produzir mais peças no Brasil e na Argentina, onde a PSA também tem fábrica, para depender menos de importação e do câmbio. “Temos interesse em que haja mais produção local.”

Índice de satisfação

“Espero que os países da América Latina encontrem situações para que o índice de confiança de seus consumidores volte a subir, para gerar um pouco de investimento, que nos ajudará a fazer o nosso trabalho de casa: valorizar os produtos que temos, continuar a melhorá-los, mas também comunicar aos consumidores tudo que temos de bom e que às vezes eles ignoram porque a nossa comunicação não está num bom nível”, avaliou.

O executivo diz que se referiu à comunicação para os clientes sobre a qualidade de produtos e dos serviços das marcas. “Isso nos permite diferenciar nossas marcas de outras mais recentes, que têm uma rede talvez menos bem construída, com qualidade de serviços menor em relação à nossa."

Ao lado dele, Carlos Gomes disse que a má fama do pós-venda da Citroën e da Peugeot, iniciada, segundo ele, na época em que as marcas eram importadas, está ficando para trás. “Uma das coisas que mais dificultam a escolha do consumidor é o chamado 'Total Cost of Ownership' (TOC), que, no Brasil é medido pelo teste do Cesvi. Os veículos da PSA, há dois, três anos, estavam mal classificados. Hoje, nas duas marcas, ou somos os primeiros ou estamos no top 3. Essa apreciação (do consumidor) vai mudar."

O TOC contempla gastos que o proprietário tem com manutenção do carro.

Gomes disse que atualmente Citroën e Peugeot possuem cerca de 150 pontos no país, cada uma, “o que cobre perfeitamente o Brasil’. E lembrou que o trabalho de melhoria do pós-venda, iniciado há cerca de dois anos, ainda não está acabado. “Mas este ano a Citroen ficou no top 3 do ranking (da consultoria) JD Power em termos de satisfação no Brasil, o que é uma primeira notícia interessante desse trabalho que está sendo feito."

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