Condenados por acidentes com mortes continuam dirigindo no Brasil

05/01/2015 11:07

Renner, da dupla Rick e Renner, se envolveu em acidente um dia após o Natal, pagou fiança e foi liberado. Em 2001, ele atropelou e matou um casal.

Fantástico

Um acidente de automóvel, um dia depois do Natal, chamou a atenção, por envolver um artista conhecido: Renner, da dupla sertaneja Rick e Renner. O cantor já tinha um longo histórico de infrações ao volante. Num outro acidente, ele matou duas pessoas.

Dois dias depois, também na cidade de São Paulo, uma outra batida grave foi provocada por um motorista condenado por um acidente com morte. Só que tanto ele quanto Renner continuavam dirigindo.

“Eu acho lindo demais o trabalho de vocês. Mas, gente, que sacanagem é essa?”, diz o cantor Renner em uma gravação.

O homem com sinais de embriaguez é Ivair dos Reis Gonçalves, 43 anos. No mundo artístico, ele é o Renner, da dupla sertaneja Rick e Renner.

Em 2001, em alta velocidade, ele bateu em uma moto e matou um casal. Agora, um dia depois do Natal, voltou a provocar um acidente. Estava bêbado. Só que desta vez não houve vítimas.

Policial: Você bebeu vodka?
Renner: Vodka.
Policial: Mas você bebeu uma garrafa?
Renner: Não, não bebi uma garrafa.

Outro homem que aparece no vídeo acima é Walter Fernandes Lopes, 28 anos. Ao volante, já causou a morte de três pessoas. Duas delas, em um acidente domingo (28) passado.

Renner e Walter têm algo em comum: são reincidentes, ou seja, cometeram crimes no trânsito mais de uma vez. Como foi possível continuarem dirigindo, mesmo depois de condenados por acidentes com mortes?

“Porque a lei é branda. Porque ninguém vai preso nesse país porque matou no trânsito”, explica o advogado Maurício Januzzi dos Santos.

Os fatos confirmam a opinião do presidente da Comissão Nacional de Trânsito da Ordem dos Advogados do Brasil. Mesmo depois de bater o carro embriagado e de tentar fugir, Renner pagou fiança de R$ 10 mil e foi liberado.

“O que não se explica é uma pessoa com antecedentes criminais conhecidos simplesmente sair de uma delegacia de polícia pela porta da frente e não ter sequer suspenso o direito dele de dirigir veículo automotor”, afirma Januzzi.

Ao Fantástico, a Secretaria de Segurança Pública disse que todas as decisões tomadas pelo delegado do caso seguiram a legislação vigente no país.

No acidente de 2001, em Santa Bárbara d’Oeste, interior de São Paulo, segundo a perícia, Renner estava a quase 160 km/h. Dez anos depois, foi condenado a três anos e seis meses de detenção e pagamento de multa de 360 salários mínimos. Nesse período, foi proibido de dirigir. Ou seja, no dia do novo acidente, na Zona Sul de São Paulo, o cantor não poderia estar ao volante. Além disso, Renner estava com a carteira vencida desde 2010.

A mãe de Luiz, um dos mortos no acidente de 2001, ‎não se surpreende com o comportamento de Renner. “Como ele tem certeza da impunidade, ele não acredita que um dia ele pode ser preso”, conta a comerciante Lourdes Nunes.

Segundo a assessoria do cantor, depois do dia 26, ele foi internado em uma clínica de reabilitação. Crimes de trânsito deixam marcas para sempre nas vidas das famílias. E a revolta delas é ainda maior quando descobrem que motoristas que já mataram dirigindo continuam nas ruas provocando acidentes ainda mais graves.

O segundo acidente de Walter foi dois dias depois do de Renner. Ele dirigia um carro na Zona Norte de São Paulo. Ao fazer uma ultrapassagem perigosa, ‎bateu na traseira de outro carro, que foi jogado contra um poste. Morreram o pai e uma filha de dois anos. A mãe da criança e outra filha do casal, de 5 anos, ainda estão internadas. Walter não socorreu as vítimas, fugiu do local e ainda tentou enganar a polícia.

Fantástico: Ele quis simular que o carro tinha sido roubado e que ele não era o responsável pelo acidente. Tinha acabado de matar duas pessoas. Como a polícia descobriu essa farsa?

Carlos Biondi, delegado de polícia: A Polícia Militar já havia localizado o veículo que ele próprio abandonou. Quando ele veio à delegacia achando que ia levar o veículo, ele acabou caindo em contradições e veio a confessar que fora o autor do crime.

Walter foi preso e, na sexta-feira (2), foi interrogado.

Delegado: Ali, você sabe qual a velocidade máxima?
Walter: Cinquenta por hora.

Cinquenta quilômetro por hora é a velocidade permitida no ponto onde foi o acidente. O Fantástico conseguiu imagens feitas segundos antes da batida. Um perito analisou o vídeo. 

“Do ponto A ao ponto B, ele estaria a 95 km/h, aproximadamente. Consequentemente, ele estava bem acima do permitido”, afirma o perito.

Walter: Eu não matei ninguém porque eu quis. Só aconteceu um acidente, só.
Fantástico: Só? Mas morreram duas pessoas, você acabou com uma família. Tem consciência disso?
Walter: Tenho.

Em 2008, com 21 anos de idade, sem ter ainda carteira de motorista, Walter atropelou e matou uma mulher. Mesmo depois do acidente, antes de ser julgado, ele conseguiu tirar a habilitação. Quatro anos depois do crime, saiu a sentença: três anos e quatros meses de prestação de serviço à comunidade e a perda do direito de dirigir por apenas três meses.

Já Renner nunca foi para a cadeia. Dois anos depois de causar as duas mortes em Santa Bárbara d'Oeste, ele participou, ao lado do parceiro Rick, de uma campanha contra acidentes de trânsito a convite da Polícia Rodoviária do Estado de São Paulo. O tema era "seguir as leis de trânsito é dez, é cem, é mil". Para a família das vítimas, um caso de desrespeito.

“Eu vejo como uma afronta para a família e para a sociedade também. Qual a lei de trânsito que o Renner segue? Nenhuma!”, afirma Lourdes Nunes, mãe de uma das vítima de 2001.

A Polícia Rodoviária Estadual afirma que na época da campanha, Renner não tinha sido condenado pela Justiça e por isso não havia motivo legal para impedir a participação do artista.

“Enquanto não houver uma mudança do pensamento do legislador e da Presidência da República de que matar no trânsito é um crime essa realidade não vai mudar”, lamenta o advogado Januzzi.

“O dever do estado é tirar o mau motorista de circulação”, defende Lourdes Nunes.

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