Parques eólicos ajudam trabalho de arqueólogos no Rio Grande do Norte

26/01/2015 13:22

Obrigatoriedade de estudos expandiu pesquisa no Nordeste.
Projetos de arqueologia revelam traços de ocupações de até 10 mil anos.

Felipe Gibson e Fred Carvalho | G1 RN

Os grandes cata-ventos que cada vez mais aparecem na paisagem do Rio Grande do Norte têm ajudado a desvendar a história das regiões onde estão instalados. A obrigatoriedade de cuidados arqueológicos para conseguir licenças ambientais nos empreendimentos de energia eólica está ajudando a financiar o estudo do passado. Professores e profissionais dizem que a arqueologia tem se expandido como mercado e área de conhecimento.

Equipe técnica trabalha nas dunas do município de Galinhos, no litoral Norte do RN (Foto: Divulgação/UERN)Equipe técnica trabalha nas dunas do município de Galinhos, no litoral norte do RN (Foto: Divulgação/UERN)

Os vestígios encontrados remontam os modos de vida de povos que ocuparam o território potiguar há milhares de anos. Também identificam a presença de tribos indígenas, grupos de ceramistas e antigas fazendas. "É um mosaico de cultura que alcança até 10 mil anos e vai até o presente", afirma Walter Morales, da Arqueologia Brasil, empresa de gestão de recursos culturais.

São metais, ferramentas, xícaras, cerâmicas, pratos, material doméstico e até alicerces de ocupações entre os vestígios encontrados nas escavações. O material foi catalogado nos projetos arqueológicos de empreendimentos eólicos instalados em municípios como Guamaré, Pedra Grande, São Miguel do Gostoso e Galinhos.

"Na área litorânea, observamos muito a influência das mudanças climáticas nos deslocamentos das populações. O clima muda, o mar avança e os povos migram. Temos áreas de dunas, por exemplo, que há milhares de anos eram florestas", detalha Morales.

Nas pesquisas da Arqueologia Brasil, foi detectada a presença de pelo menos quatro grandes grupos humanos. São citados, por exemplo, os ceramistas Papeba, grupos caracterizados pelo uso de cerâmica simples que ocupavam o Nordeste brasileiro na pré-história. Outros grupos citados são os tupi-guarani, caçadores-coletores e sociedades agrícolas.

Concessão de licenças

No Rio Grande do Norte, 98% da demanda do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) para concessão de licenças ambientais vem do setor da energia eólica.

"Todo empreendimento configurado como potencialmente impactante tem que passar pelo processo de licenciamento", explica o arqueólogo Iago Medeiros, do Iphan, responsável pelo setor que analisa e aprova os projetos arqueológicos elaborados pelos empreendedores da energia eólica.

O arqueólogo detalha que o processo acontece em três fases:

Na licença prévia, os estudos arqueológicos se concentram no diagnóstico dos bens que podem estar presentes na região. "A equipe técnica identifica os impactos que podem acontecer e propõe medidas mitigadoras", destaca.

Para a licença de instalação, é feito um projeto de aprofundamento. "A previsão de impactos é refinada e se é observada a necessidade de escavação das áreas", conta.

Por último, para concessão da licença de operação, é feito o resgate dos bens. "O objetivo é salvar as informações científicas ali presentes", diz Medeiros.

"O aporte de dados tem aumentado significativamente. É um trabalho que os empreendedores têm recursos para bancar e que as instituições públicas não davam conta", analisa o arqueólogo do Iphan.

Walter Morales, da Arqueologia Brasil, afirma que os benefícios no financiamento da pesquisa arqueológica vão além da concessão de licenças para os parques eólicos. "Dificilmente essas áreas seriam pesquisadas com essa intensidade. O Brasil pré-colonial e pré-histórico é praticamente desconhecido. Além disso, novas oportunidades de trabalho e cursos estão surgindo", opina Morales.

Pesquisas

Passada a fase de elaboração dos projetos arqueológicos, o material recolhido é enviado para instituições públicas, onde passam por estudos aprofundados. Os vestígios encontrados em território potiguar têm como 'guardiões' a Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), a Universidade Estadual do Rio Grande do Norte (UERN) e o Museu Câmara Cascudo.

Estudantes aprofundam pesquisas com material encontrado em projetos arqueológicos das eólicas no RN (Foto: Divulgação/UFRN)Estudantes aprofundam pesquisas com material encontrado (Foto: Divulgação/UFRN)

No laboratório de Arqueologia da UFRN estão armazenadas mais de 30 mil peças recolhidas durante a elaboração dos estudos arqueológicos do parque eólico Alegria, que entrou em operação em 2010 no município de Guamaré, no litoral Norte. O empreendimento é da New Energy Options Geração de Energia, uma empresa brasileira controlada pelo grupo Multiner.

"Na área do Alegria foram encontrados vestígios de diversas épocas. Analisamos cerâmicas, louças, vidros, cortadores, perfuradores, entre outros. Aqui as informações arqueológicas colhidas na elaboração dos projetos ganham um formato acadêmico, elevando a arqueologia a um nível conhecido", comenta Roberto Airon Silva, coordenador do Laboratório de Arqueologia da UFRN.

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