Rio tem 14 casos de malária confirmados após 40 anos livre da doença

26/02/2015 10:13

Um morador da Região Serrana e 13 da capital tiveram a doença identificada pela Fiocruz

Ana Lucia Azevedo | O Globo

RIO - Considerado oficialmente livre da malária há quatro décadas, o estado do Rio volta a registrar aumento dos casos da doença. Os casos diagnosticados na Fiocruz estão sob vigilância epidemiológica na Secretaria de Estado de Saúde e no e Ministério da Saúde porque, ao que tudo indica, são originados no próprio estado e não "importados" da Amazônia. Um episódio de malária acontece na Região Serrana, confirmado pela Fiocruz no réveillon. O padrão da doença é diferente do registrado na Amazônia, área onde a malária é endêmica. Segundo o geneticista Mariano Zalis, da Universidade Federal do Rio de Janeiro, que analisa as amostras moleculares coletadas na serra, apenas um dos 14 casos é morador da região. Os demais são visitantes, moradores da Zona Sul do Rio de Janeiro.

Mosquito Anopheles kertezia cruzii, transmissor da malária - Divulgação

Os casos foram identificados pelo Ambulatório de Doenças Febris Agudas do Instituto Nacional de Infectologia Evandro Chagas da Fiocruz, que integra o Centro de Diagnóstico e Treinamento da Malária (CPD-MAL), liderado pelo médico imunologista Cláudio Tadeu Daniel Ribeiro, um dos maiores especialistas do mundo na doença.

O trabalho faz parte da pesquisa de Patricia Brasil, chefe do DFA/INI e de Anielle Pina-Costa, enfermeira e doutora do mesmo serviço. Estudos moleculares estão sendo conduzidos pelo grupo do geneticista Mariano Zalis, do Laboratório de Infectologia e Parasitologia Molecular do Hospital Universitário Clementino Fraga da UFRJ e também pioneiro no estudo genético da malária no Brasil e pelo grupo de Cristina Brito, da Fiocruz de Belo Horizonte.

O objetivo é o total sequenciamento do genoma do parasita plasmódio causador da doença para a identificação de sua origem. De acordo com Zalis, da UFRJ, entre os 14 casos há uma mulher e uma criança. Um casal que havia ido tomar banho de cachoeira com o filho.

Os especialistas destacam que não é caso para pânico. Ou de deixar de frequentar essas áreas, mas de atenção com os sintomas e a busca de tratamento de adequado. A malária que afeta o Rio não é letal. Mas pode causar episódios permanentes de febre, problemas hepáticos e prostração se não for tratada com os remédios certos. O uso de repelente — Exposis, com o princípio ativo icaridina, fabricado pelo laboratório Osler, é o único que funciona com longa duração — é essencial. Há casos em localidades de Petrópolis, Friburgo, Lumiar, Sana e Guapimirim.

Por falta de conhecimento dos médicos de fora da Amazônia, desacostumados com malária, pode haver demora do tempo decorrido entre o aparecimento dos sintomas — o que acostuma acontecer em torno de 10 dias após a infecção — até o diagnóstico.

Na Amazônia, 60% dos casos são diagnosticados e tratados nas primeiras 48 horas, mas fora dela, esse percentual cai para somente 19%. Não se trata de falta de atendimento — a maioria dos pacientes foi atendida em clínicas particulares conceituadas. Mas só quando procuraram a Fiocruz receberam diagnóstico adequado

Patricia, Anielle e Ribeiro estudam a malária no estado do Rio, com colegas de outras áreas da Fiocruz e de outras instituições desde 2008, dentro do projeto "Malária da Mata Atlântica". Daquele ano a 2014 foram 15 casos. No início de 2015, apareceram 14 casos. Os pesquisadores atribuem o fato a condições climáticas (verão seco e quente que favoreceu a proliferação do mosquito Anopheles kertezia cruzii, que usa o "copo" das bromélias nativas da Mata Atlântica como criadouro.

Uma das hipóteses consideradas por eles é que o mosquito pique o macaco e cause nele a malária. Quando, eventualmente, pica o homem, transforma a doença numa zoonose, com dois hospedeiros vertebrados, o macaco e o homem.

— Aqui não é a Amazônia, onde se espera encontrar malária. O trabalho de identificação é mais lento do que o normal porque os médicos não pensam em malária, quando atendem as pessoas com sintoma — explica Mariano Zalis.

Por falta de desconhecimento dos médicos do município do Rio, desacostumados com malária, entre o aparecimento dos sintomas — o que acostuma acontecer em torno de 10 dias após a infecção — até o diagnóstico pode levar mais de 40 dias. Não se trata de falta de atendimento — a maioria dos pacientes foi atendida em clínicas particulares conceituadas. Mas só quando procuraram a Fiocruz receberam diagnóstico adequado.

Anielle estuda malária no estado do Rio desde 2008, dentro do projeto "Malária da Mata Atlântica". Daquele ano a 2014 foram 15 casos. No início de 2015, apareceram 14 casos. Ela e Claudio Ribeiro atribuem o fato a condições climáticas (verão seco e quente que favoreceu a proligeração do mosquito Anopheles kertezia cruzii, que usa o "copo" das bomélias nativas da Mata Atlântica como criadouro. Ele pica o macaco e e este eventualmente pica o homem.

Tudo indica que se trata de um fenômeno ambiental. Poderia ser uma exacerbação de condições da transmissão de uma malária residual na região, desde que que a doença se se concentrou na Amazônia (onde estão mais de 99% dos casos no Brasil), há muitos anos.

— A malária sempre pode ter estado ali. Porém, o calor extremo, que favorece a proliferação do mosquito transmissor, a seca, que impede que as chuvas levem as larvas das bromélias, e a busca dos turistas por lugares mais frescos e pitorescos parecem ter sido a combinação para o aumento de casos. Ao que tudo indica, a maioria das vítimas foi picada ao tomar banhos de cachoeira no meio da mata — diz Anielle.

Nenhuma das vítimas corre risco de morte. Todas estão bem.

— O aparecimento da malária nas florestas serranas é mais um alerta ambiental. As pessoas estão cada vez mais dentro da mata. Esse fenômeno aconteceu também na Malásia e um parasito que causava doença apenas em macacos passou a provocar doença graves em seres humanos. A solução passa por uma maior compreensão e monitoração da floresta. Vivemos junto à florestas. Amamos estar lá. Precisamos compreendê-las melhor. Já o Brasil tem feito um trabalho muito bom na redução de casos na Amazônia, que já foram mais de 600 mil registrados em 1999 e hoje são 150 mil — observa Claudio Ribeiro.

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