Rúgbi na favela: projeto ajuda a formar cidadãos em área ocupada pelo tráfico

29/06/2015 19:55

Criada há dois anos pelo jogador de rúgbi inglês Robert Malengreau, ação premiada pela Federação Inglesa beneficia mais de 100 crianças da Região Metropolitana do RJ

Flávio Dilascio | Globo Esporte

Conhecido como "Bocão", Rodrigo Luiz Ferreira, de 14 anos, tem um sonho: ser jogador de rúgbi. Aluno do nono ano do Ensino Fundamental, ele mora no Morro do Castro, em São Gonçalo, uma das áreas de menor índice de desenvolvimento da Região Metropolitana do Rio. Uma vez por semana, Bocão treina rúgbi em um campo localizado dentro da própria comunidade. O adolescente é um dos 132 beneficiados pelo projeto social UmRio, que promove inclusão, liderança e solidariedade entre jovens que vivem dentro e próximo a favelas. Idealizado e desenvolvido há dois anos pelo jogador de rúgbi inglês Robert Malengreau, o UmRio recebeu, no início do mês, o prêmio Presidencial Rugby Football Union da Federação Inglesa de Rúgbi. Apesar do reconhecimento, o projeto funciona por meio de ação voluntária, uma vez que ainda não conta com patrocinadores.

Rúgbi projeto social UmRio São Gonçalo (Foto: André Durão)Alunos do UmRio posam para foto: 132 crianças beneficiadas (Foto: André Durão)

- A ideia surgiu em 2010, quando iniciei o meu mestrado em estudos latino-americanos. Sou formado em Política e Relações Internacionais e resolvi vir para o Brasil trabalhar a minha tese de desenvolvimento social. Escolhi o Brasil, pois a minha mãe é brasileira, e nós sempre vínhamos passar férias aqui. Fundei o projeto no Morro do Castro em agosto de 2013, porque essa é uma das favelas de menor índice de desenvolvimento do estado. Na minha tese, desenvolvo o conceito de cidade assimétrica, isto é, as ações sociais em favelas se limitam a oito ou nove comunidades da Zona Sul. Além de ensinarmos rúgbi a crianças e adolescentes, desenvolvemos valores como liderança, trabalho de equipe e solidariedade - afirmou Robert Malengreau, que além de presidente do UmRio é jogador do Niterói Rugby.

Localizado na divisa entre São Gonçalo e Niterói, o Morro do Castro tem cerca de 30 mil moradores (números não oficiais). Dominada por uma das facções criminosas mais conhecidas do país, a comunidade conta com apenas três escolas, sendo que dois terços dos seus domicílios não têm saneamento básico. Um dos colégios da região, a Escola Municipal João Brazil, é um dos parceiros do projeto. Três professores da unidade atuam nas aulas, sendo que a maioria das crianças inscritas no UmRio são alunos da escola.

- Nosso projeto possui três pilares: o Morro do Castro, a Escola João Brazil e a Universidade de Oxford, que é quem nomeou o projeto através da minha tese. Recebemos constantemente a visita de parceiros da universidade, que nos ajudam no dia a dia. Em agosto, vamos receber cinco jogadores de rúgbi de Oxford - comentou Robert.

Por limitações financeiras, o UmRio funciona apenas uma vez por semana, sempre às terças-feiras. O projeto tem alunos com idades entre 6 e 18 anos, divididos em duas turmas. Para manter as atividades, a coordenação do UmRio levantou fundos nos últimos meses através de financiamento coletivo (crowfunding) e de um bazar beneficente. Outra fonte de recurso foi um prêmio ganho de uma organização internacional de seguros. 

- Graças a esse prêmio, conseguimos dar entrada na compra de material esportivo. Estamos buscando parceiros, mas até agora nada. Em breve lançaremos um plano de sócio colaborador, onde cada pessoa poderá dar uma contribuição mínima de R$ 10. Gostaríamos de expandir o UmRio, mas precisamos de receitas - revelou Robert.

O inglês radicado no Rio atua com uma equipe multidisciplinar, todos voluntários. Há uma coordenadora educacional, um diretor de comunicação e um diretor de áudio visual. A direção esportiva fica a cargo de João Pedro Clark, também jogador de rúgbi e amigo de Robert.

- Temos sete pessoas na nossa equipe administrativa e mais 15 jogadores de Oxford, que vêm sempre ao projeto nos ajudar. As crianças são muito disciplinadas e entusiasmadas com o rúgbi. Começamos com 57 inscritos em 2013, hoje temos 132. Ensinamos muito sobre disciplina, que é levada para o dia a dia deles, principalmente na sala de aula - contou João Pedro.

CRIANDO SONHOS

Rúgbi Rodrigo Robert Malengreau projeto social UmRio São Gonçalo (Foto: André Durão)O idealizador Robert Malengreau com o aluno Rodrigo "Bocão": sonho de ser jogador de rúgbi (Foto: André Durão)

Uma das diretrizes do UmRio é descobrir potencialidades em seus alunos, apesar de ser um projeto voltado para a prática esportiva. Além dos treinos, as crianças e adolescentes são submetidas a atividades educacionais com a finalidade de identificar ambições e aspirações para o futuro. Graças ao convívio do projeto, a aluna Luane de Moraes traçou a meta de ser estilista na vida adulta. Já a colega Bruna da Silva Conceição quer ser advogada.

- Quero ser advogada, porque é uma profissão onde você pode ajudar muito as pessoas. Sem contar que é uma área onde precisa de muito estudo. O rúgbi tem me ajudado a me descobrir, crescer como pessoa, fazer amigos, conhecer gente e respeitar os outros - destacou Bruna, que tem 13 anos e está no sétimo ano do Ensino Fundamental. 

Robert Malengreau ressalta ainda que o UmRio aproveita os valores do rúgbi para passar noções de cidadania como, por exemplo, o combate ao machismo.

- Como no rúgbi apenas o capitão pode conversar com o juiz, e nós fazemos partidas com equipes mistas, costumamos colocar meninas na função de capitão. É uma forma de quebrar o machismo e ensinar os garotos a respeitarem as mulheres - frisou.

Nesta terça-feira, o UmRio recebeu a visita dos jogadores da seleção brasileira Daniel Gregg e Beatriz Futuro, a Baby, um dos destaques da equipe feminina que se prepara para o os Jogos Pan-Americanos de Toronto, no canadá, em julho. Atletas do Niterói Rugby, ambos elogiaram o projeto e se divertiram com as crianças durante a visita ao Morro do Castro.

- O que eu acho mais legal aqui é a questão da cidadania. O rúgbi é uma ferramenta muito fácil de se trabalhar o esporte como modo de inclusão social e educação mesmo. Isso no chamado país do futebol é fantástico. Que isso aqui sirva de exemplo para novos projetos, que, além de educarem, ajudam a popularizar ainda mais o nosso esporte - comentou Baby, que já visitara o UmRio outras três vezes.

Para Daniel Gregg, além da cidadania, o rúgbi é uma forma de reunir crianças dos mais variados tipos físicos, diminuindo o preconceito. Visitando o projeto pela primeira vez, ele se impressionou com o entusiasmo das crianças.

- O trabalho que eles fazem aqui é excelente. É muito raro vermos o rúgbi como atividade esportiva para crianças no Brasil. Vemos mais futebol nas quadras das escolas, e às vezes vôlei e basquete. O rúgbi pode receber todos os tipos de criança, pois você não precisa de um biotipo específico para jogar. Muitas das vezes aquela criança que é considerada baixa para o vôlei ou basquete ou mais pesada para o futebol pode ser aproveitada aqui. De uma forma ou de outra, isso é uma maneira de se quebrar um preconceito - finalizou.

Colaborou Gabriel Fricke

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