Valcke: ‘Para o Brasil, ganhar a Copa importa mais que a organização’

02/06/2014 16:14

Visto como vilão por muitos brasileiros, secretário-geral da Fifa analisa erros dos sete anos da preparação

Jorge Luiz Rodrigues | O Globo

RIO - À vontade, sem o terno, Jérôme Valcke entrou em uma das salas do segundo andar do quartel-general montado pela Fifa num hotel do Posto 6, em Copacabana, às 11h15m da última sexta-feira, e emendou: “já estão falando mal de mim novamente...”, afirmou, em alusão ao ministro das Comunicações, Paulo Bernardo, que o criticara, dizendo que “todo mundo sabe que cartola de futebol é meio mafioso”.

— É sempre a mesma coisa. Que eu quis dar um chute no traseiro e blablablá... — disse para o diretor de Comunicação da Fifa, Walter de Gregorio, depois de cumprimentar o repórter e o fotógrafo do GLOBO que o aguardavam para uma entrevista exclusiva que iria durar 36 minutos.

O francês de 53 anos e que foi pai pela quarta vez há um mês passou longe de estar mal-humorado. Desde 2007, sua relação com o Brasil vai de um extremo ao outro: do encantamento com o Rio, os elogios à Amazônia e palavras de admiração pelo futebol e pela seleção às ácidas críticas à organização do país, pelas quais também se tornou conhecido. A ponto de, ao longo dos anos, sua segurança pessoal ter sido reforçada toda vez que visita o Brasil a serviço. Depois da entrevista, foi para um outro compromisso, fora do hotel, onde, na portaria, um carro blindado e policiais federais o aguardavam. Rotina que se repete desde o último dia 19, quando desembarcou em São Paulo, e continuará até 15 de julho, quando irá embora, dois dias após a final da Copa.

— Vou sumir! — resumiu, sobre as férias que promete tirar.

Antes, ele trabalha para assegurar que a Copa seja um sucesso e diz querer desfrutar de quatro semanas mágicas de futebol.

A pouco menos de duas semanas do início da Copa do Mundo, o senhor considera o Brasil 100% pronto para o megaevento?

Para organizar uma Copa do Mundo precisamos estar prontos. Para isso, estamos mandando um monte de gente a diferentes estádios, porque agora estamos no período em que assumimos as 12 arenas. Estamos assegurando que todos estarão prontos.

O que está mais atrasado?

Estamos atrasados nas tribunas de imprensa, nos cabeamentos (de energia e telefonia) desses locais. Então, é o que estamos fazendo: montar zonas específicas que são muito importantes para serem usadas durante a Copa do Mundo. A tribuna de imprensa é uma área-chave de trabalho, onde nada pode dar errado. Os focos principais são em revestimento, mídia e tecnologia (banda larga, telefonia, sinal de TV etc).

O senhor imaginava, há sete anos, quando a Fifa deu ao Brasil a sede da Copa, que enfrentaria dezenas de desafios e de momentos conturbados como os vivenciados na organização deste Mundial?

O Brasil é um país único: ganhou cinco vezes a Copa do Mundo, seus jogadores são superestrelas, que alegram milhões de pessoas todos os dias. Há sete anos, o Brasil vem correndo para ser mais desenvolvido, para se tornar um novo país, trabalhando para melhorar em saúde, educação, serviços públicos. Foi um desafio para o Brasil realizar a Copa do Mundo em 12 sedes porque a gente sabe que São Paulo e Rio de Janeiro seriam escolhas naturais. Mas havia muito a fazer em outras cidades.

Depois do Brasil virão a Rússia e o Qatar. O que esperar?

Não é diferente para a Rússia. Lá teremos 11 cidades e 12 estádios. Moscou e São Petersburgo são acostumadas a um monte de coisas, a eventos internacionais, e, recentemente, Sochi realizou as Olimpíadas de Inverno. Mas as outras cidades vão enfrentar desafios para construir estádios e serviços essenciais para receber o mundo. A França, para a Eurocopa-2016, terá que investir dinheiro para reformar e renovar os estádios, mas não terá que gastar em transporte público, que funciona muito bem, assim como já funcionava na Alemanha em 2006. No setor de hotéis, a França recebe 66 milhões de turistas por ano, mas ainda haverá algo a fazer. A Copa do Mundo não é um evento fácil de organizar. Não é como organizar um jogo de campeonato nacional a cada fim de semana.

Em uma entrevista recente ao jornal suíço “Le Temps", o presidente da Fifa, Joseph Blatter, revelou que o ex-presidente Lula havia pedido à Fifa para organizar a Copa-2014 em 17 cidades brasileiras. Como foi possível chegar ao acordo para ter 12?

A primeira coisa a dizer é que 12 é o número máximo, oito é o mínimo; e dez é um bom número. O Brasil não é o primeiro país a ter 12 sedes, outros tiveram até mais (a Espanha, em 1982, organizou a Copa em 17 estádios de 14 cidades). É verdade que tivemos o pedido (de Lula) para fazer com 17 cidades. Então, dissemos: “vamos escolher 12 entre 17, mas não vamos aumentar para 17. Seria um custo muito maior para todos". É um custo para o país, para as cidades, porque significa mais pessoas trabalhando na organização, mais produção de TV e um custo absurdamente mais alto, até mesmo para a Fifa. Levando-se em consideração o tamanho do Brasil, 12 sedes é um número bom. Num país menor, dez é o ideal. E se falarmos de um país muito pequeno, como o Qatar (sede de 2022), oito, em vez de dez.

(Nota da Redação: ontem, um dia após a entrevista, o Departamento de Comunicação da Fifa enviou esta versão para a resposta de Valcke: “A primeira coisa a dizer é que, de acordo com as regras de candidatura, 12 é o número máximo de sedes de uma Copa, oito é o mínimo; e dez é um bom número. O Brasil não é o primeiro país a ter 12 sedes, outros tiveram até mais. Tivemos o pedido (de Lula) para fazer com 12, o que faz sentido devido às dimensões do país. Então, dissemos (a Lula): “vamos escolher 12 entre 17”.)

Foi difícil convencer o Brasil?

As regras valem para todos. A Fifa não tem interesse em quebrar suas regras e renegociar o tamanho da Copa do Mundo. Nós dissemos: “vocês têm que escolher 12 entre 17”. A decisão de escolher 12 entre 17 foi feita pelo Brasil, não por nós. Naquela época, o Brasil, através de Ricardo Teixeira, foi ao Comitê Executivo da Fifa e apresentou uma lista de 12 cidades, pedindo que fossem aprovadas. Nesse caso, você confia na pessoa responsável pela organização do evento. E o Comitê Executivo da Fifa não poderia chegar e dizer: “Não. Em vez de Manaus, nós deveríamos usar Belém”. Se a cidade preenchia todos os nossos requisitos, se tinha preenchido nosso “acordo de cidades”, caberia ao país decidir quais cidades deveriam receber e organizar a competição.

Não é desperdício de dinheiro construir um estádio com 40 mil lugares em Manaus, onde o futebol local tem time só na quarta divisão?

O tamanho da Copa do Mundo deve estar conectado aos interesses de levar a Copa a todos. Manaus tem um belo estádio. Eu asseguro que em poucos anos esse estádio fará parte do legado da Copa de várias maneiras e poderá ser usado não apenas como estádio de futebol. Além disso, a população de Manaus e a região não poderiam ficar fora de uma Copa do Mundo pelo que a Amazônia representa para o mundo.

O senhor deu a entender que o Qatar terá, então, apenas oito estádios...

É uma discussão que estamos tendo. Ainda não há uma decisão. Não jogamos contra. Queremos a melhor coisa para a Copa do Mundo. O gol para o Brasil é ganhar a Copa do Mundo e, para a Fifa, que a Copa do Mundo seja um tremendo sucesso. Que seja vista em todas as partes do mundo, no Afeganistão, nas Ilhas Salomão... Com o Qatar, estamos conversando para que seja da melhor maneira.

Não foi um erro dar a Copa-2022 ao Qatar e agora ter que renegociar até o período de disputa para o inverno no país, entre novembro e dezembro, o que significaria uma mudança radical no calendário do futebol?

Há um entendimento entre várias pessoas, e Blatter já falou isso, Michel Platini (presidente da Uefa) também, que o melhor período para jogar a Copa-2022 é o do inverno. Vamos iniciar essa discussão no Comitê Executivo da Fifa em setembro e esperamos ter uma decisão até março de 2015, porque é importante saber logo quando será o período da Copa do Mundo. Vamos consultar patrocinadores, associações nacionais, todos os envolvidos.

O que o senhor pensa de ser visto no Brasil como o “vilão”, o homem que visa apenas ao lucro da Fifa?

Eu não sei... Eu não gosto de ser o garoto mau. Não penso que em minha posição eu possa ser visto como o bom moço. A minha função é defender os interesses da Fifa e assegurar que a Fifa seja forte como instituição. Não politicamente, porque isso é atribuição de Blatter. Minha função é assegurar que estejamos fortes financeiramente e também na organização dos torneios, além de cumprir com todos os estatutos da Fifa e também desenvolver o futebol.

Mas o senhor não se sente mal com as críticas que recebe?

Particularmente, não é legal acordar e ler ou ouvir coisas não tão belas sobre você. Mas meu papel é cumprir com requisitos do meu trabalho.

O senhor só sai nas ruas do Brasil cercado de policiais e viaja em carros blindados. Teme ser atacado?

Eu não sei (pausa). No fim de semana passado, eu caminhei pelas ruas do Leblon e de Ipanema. É verdade que não são lugares em que alguém possa ser atacado. Eu vi que algumas pessoas me reconheceram, mas ninguém me tratou mal. Sei que asseguram que nada pode acontecer comigo. Não que eu sinta medo. Eu tenho família, quero proteger a mim e a minha família. Estou me protegendo para proteger minha família, e não simplesmente me proteger.

O senhor imaginou que pudesse experimentar tais sensações organizando a Copa?

É como na África do Sul. Virei o rosto da Fifa, mais até do que Blatter, que é o presidente e não está envolvido no dia a dia da organização da Copa do Mundo. Não é engraçado. Alguém me disse: “você deveria parar de falar que as coisas estão atrasadas e com esse tom de fala presidencial”. Mas esse é o meu trabalho. No final da Copa do Mundo, tenho que assegurar que as pessoas cheguem perto do Blatter e digam: “Deu tudo certo!” Parabéns!”. Não espero que as pessoas venham me cumprimentar. O presidente, sim, deve ser cumprimentado. Meu trabalho é nos bastidores. Minha posição na Fifa é assegurar que, no dia 12 de junho, após o jogo de abertura, só haja rostos sorridentes e confiantes. É claro que isso depende também do resultado do jogo do Brasil (risos).

É crucial para a Fifa que a seleção brasileira vá cada mais mais longe na Copa do Mundo, como foi na Copa das Confederações, até pelo temor de manifestações?

Sempre esperamos que a seleção anfitriã continue no torneio o maior tempo possível. É bom para o torneio e cria uma atmosfera melhor no país. Em 1998, na França, foi incrível o país inteiro mudando sua percepção sobre a seleção. É o que eu desejo para o Brasil: não somente que ganhe a Copa do Mundo, mas que possa empolgar, que dê alegria. Eu desejo para o Brasil e sei que é muito importante para o Brasil jogar a final, talvez até mais do que o sucesso da organização.

Quais são as suas melhores lembranças da organização da Copa no Brasil?

Minhas melhores lembranças são as pessoas que conheci, que encontrei. As pessoas escreviam nos jornais e falavam nas TVs que eu estava em conflito com o Brasil. Não conheci ou encontrei apenas governadores, prefeitos, pessoas da organização, mas também jogadores, como Ronaldo, Cafu, Bebeto. Isso é fascinante em meu trabalho. Todo dia você conhece uma pessoa. Não é divertido voar por muito tempo como eu voo, muitas vezes indo diretamente do aeroporto para um estádio, para uma reunião, de volta para o hotel, depois para uma nova cidade. Conheci muito do Brasil no ar, de avião.

E qual foi sua pior lembrança?

A pior foi o período em que fui considerado persona non grata no Brasil. Foi o pior momento em sete anos (pela crítica sugerindo chute no traseiro do Brasil para acelerar os preparativos).

Mais do que a celeuma sobre a retirada do Morumbi da Copa e a troca pelo Itaquerão?

Eu creio que esse problema aconteceu mais na mídia, quando pessoas escreveram que eu teria participação nas construtoras. É incrível, absurdo que as pessoas puderam dizer ou escrever isso. O Morumbi não atendia aos requisitos. Isso é negócio. Negócio tem algum dia difícil, outro mais fácil. Tomo as decisões facilmente. Eu gosto de ver as coisas avançarem, em vez de ficar pensando ou falando sobre como seriam.

Se o senhor pudesse mudar a história, nesses sete anos, faria de novo ou mudaria algo?

Penso que o erro de todos nós foi ter começado muito tarde. Quando houve a decisão sobre o Brasil (em 30 de outubro) em 2007, a Fifa estava totalmente envolvida com a Copa do Mundo (de 2010) da África do Sul, que também não era uma organização fácil e tinha muita coisa a fazer. E o Brasil começou a trabalhar apenas depois da (Copa da) África do Sul. Talvez, tenha sido muito tarde. Decisões-chaves deveriam ter sido tomadas antes, como a Lei Geral da Copa.

Com que a Fifa deve tomar cuidado agora? O que é mais importante nesse momento?

É finalizar todos os detalhes. Assegurar que todas as partes desfrutem da Copa do Mundo. As pessoas querem chegar aos estádios e às cidades e aproveitar. O número de chefes de estado que estão vindo ao Brasil também. Principalmente, com relação ao jogo inaugural.

Quantos jogos o senhor deverá assistir?

Vou à abertura, no dia 12 de junho, depois, estarei em Espanha x Holanda, em Salvador; irei a Inglaterra x Itália, em Manaus; depois, a França x Honduras, no Beira-Rio; depois paro dois dias, e recomeço. Não irei aos 12 estádios durante a Copa novamente, mas, dos 48 jogos da primeira fase, devo assistir ao redor de 20. Irei também a algumas quartas de final, às duas semifinais, à decisão do terceiro lugar e à final.

Faz ideia de quantos quilômetros o senhor deverá percorrer?

Muitos! Mas compensaremos todas as nossas emissões de carbono. Pagaremos por elas (risos).

Dos lugares que o senhor visitou no Rio e no Brasil o que mais o impressionou?

Eu gosto de estar no Rio. Eu me sinto confortável na cidade. É onde eu passo mais tempo quando estou aqui porque o Comitê Organizador Local está no Rio e nossos escritórios também. Gostaria de ter ido à Floresta Amazônica, ao Rio Amazonas, e não fiz isso. Não fiz antes da Copa, não farei durante, nem logo depois. Talvez, um dia, eu possa voltar. Seria único.

O senhor já escolheu um time para torcer?

Não. Torço pelo PSG (Paris Saint-Germain).

O senhor foi executivo de TV do Canal Plus no tempo em que o clube era dono do PSG. Como foi com Ronaldinho Gaúcho?

Foi um período incrível. Um tempo em que o Canal Plus fez muito pelo futebol francês, ajudou a fazer crescer o campeonato, até com a chegada de Ronaldinho, que aumentou o interesse pelo futebol do país.

E Jerôme Valcke em família: como ele é?

Um cara muito legal (risos). Viajo muito, então, passo mais dias longe de casa do que eu gostaria. Eu amo esquiar. Esquio frequentemente no inverno suíço, quando estou em casa. No verão, vamos à Itália porque tenho uma esposa italiana e é um dos mais bonitos países para se estar. As pessoas de lá são muito legais. Nós temos uma vida básica, muito normal. Eu não gosto de vida social agitada. Adoro estar com minha família. Nós nunca somos vistos em eventos com muitas pessoas. É uma vida normal.

E sua esposa, o que gosta de fazer?

No momento, o que ela fez foi dar à luz a duas crianças (risos). Não é muito fácil para a mulher quando ela está grávida. Temos um menino de dois anos e meio e uma menina de 1 mês. São do meu segundo casamento. Tenho quatro filhos. Meu mais velho tem 29 anos, e a caçula, apenas quatro semanas. E acabou! Não terei mais filhos.

É difícil conciliar a vida de secretário-geral da Fifa com a de pai e marido, especialmente em época de Copa do Mundo?

Penso que para ser pai é preciso se manter jovem. Você tem que sorrir, aproveitar a vida com as crianças, apoiá-las. É belo porque quando você chega em casa e vê seu filho sorrindo para você, pedindo para pôr o leite dele, você se desliga dos problemas do momento, que são a organização da Copa do Mundo no Brasil e outras coisas rotineiras, para conversar com ele, ensinar as coisas da vida. Não há nada mais bonito do que o sorriso de uma criança quando você chega em casa. Amo os meus filhos.

O que de melhor o senhor fez na Fifa como secretário-geral?

A melhor coisa que fiz na Fifa foi trabalhar para manter a organização forte. Assegurar que a maioria dos programas que fizemos pudesse ser entregue. Estou satisfeito com o que tenho feito como secretário-geral. Estamos fazendo direito. Não está mal.

Quais seus planos para o futuro? Quer ser presidente da Fifa?

Meu principal compromisso no futuro é no dia 15 de julho, quando entrarei de férias. Vou sumir!

Por um mês?

Sei que quando disser ao Blatter que terei um mês de férias, ele responderá, com seu estilo de chinês, “que dois dias serão suficientes" (risos). Em 2015, será o ano da eleição (na Fifa). Penso que Blatter será reeleito presidente da Fifa; então, ele vai decidir se continuarei secretário-geral até 2019, quando terei 58 anos. Imagino que eu tenho tempo até 2019 para pensar sobre meu futuro. Mas, no momento, a minha meta é realmente aproveitar estas quatro semanas mágicas de Copa do Mundo.

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