Castelos medievais da época do renascimento estão em oferta na Itália

31/01/2015 09:32

Crise econômica persistente, cortes nos subsídios do governo para a conservação de propriedades históricas e aumento nos impostos prediais obrigam herdeiros a liquidar propriedades cinematográficas

The New York Times | O Estado de SP

PONTASSIEVE, ITÁLIA – Aninhado numa graciosa colina da Toscana perto desta cidade a oeste de Florença, acariciado pela neblina da manhã, há um castelo medieval que um dia abrigou as poucas famílias nobres que tramaram contra o domínio dos Medici durante o Renascimento, e acredita-se que algumas delas tenham se refugiado aqui.

Castelo da época do renascimento à venda em Pontassieve: imóvel está abandonado (Foto: NYT)

Castelo da época do renascimento à venda em Pontassieve: imóvel está abandonado (Foto: NYT)

Nos séculos seguintes, os descendentes dos nobres e os camponeses que os serviam viveram abrigados dentro das muralhas da fortaleza ou nas casas de campo próximas, frequentando a missa numa igreja de pedra.

“Lembro-me das procissões com mais de 25 famílias de camponeses rumando para a missa de domingo aqui na igreja, comuns até o final da década de 1960”, disse Franco Viliani, 80 anos, antigo administrador da propriedade.

“Pode parecer estranho para um sistema pseudofeudal, mas isso era uma forma de inclusão. Depois disso, vimos alguns proprietários uma ou duas vezes ao ano.“ Hoje a propriedade inteira está vazia e à venda, com castelo, igreja e tudo mais. Embora essa pareça uma circunstância excepcional, situações como essa estão se tornando cada vez mais frequentes na Itália.

Embora os castelos e mansões na Itália tenham sido tradicionalmente parte da herança familiar, atualmente há dúzias de propriedades do tipo à venda, mesmo neste que é um dos mercados imobiliários mais conservadores da Europa.

Nos anos mais recentes, a bem-enraizada riqueza herdada minguou em decorrência de uma poderosa combinação de fatores. Esses incluem o crescente custo de vida e dos serviços, as finanças abaladas dos proprietários num momento de problemas econômicos persistentes, cortes nos subsídios do governo para a conservação de propriedades históricas e, é claro, o aumento nos impostos prediais.

“O mercado italiano é composto principalmente por propriedades históricas – mansões são transmitidas de geração para geração”, disse Dimitri Corti, diretor executivo da Lionard, imobiliária de alto padrão com sede em Florença cujo portfólio conta com cerca de 70 castelos localizados no centro e norte da Itália.

“Não é necessariamente verdade que os donos são todos milionários, como poderíamos supor em países como Grã-Bretanha ou Estados Unidos”, acrescentou ele. “Alguns precisam de liquidez.” Além disso, aqueles que possuem dinheiro para comprar tais propriedades costumam ser estrangeiros, circunstância preocupante para alguns moradores da região que se queixam da perda do patrimônio histórico e das famílias tradicionais para uma nova e endinheirada elite global.

Corti disse que, na Lionard, a maioria dos interessados em vender é de italianos, e a maioria dos compradores é estrangeira. Em geral, procuram vilas ou mansões na Toscana, e estão dispostos a pagar em média € 6 milhões ou € 7 milhões (cerca de US$ 6,75 milhões e US$ 7,85 milhões).

“Não é mais razoável supor que o dono de um imóvel adjacente teria interesse em comprar o seu”, acrescentou Corti. “É mais provável que o interessado seja russo, ou chinês.” De fato, mais da metade dos clientes da Lionard vem da Rússia e dos países da ex-União Soviética, e o restante costuma vir da América do Norte.

Outras imobiliárias do segmento de luxo, como o braço italiano da Sotheby’s, contam com uma clientela mais diversificada, que vai dos países árabes até a China, passando por Rússia e América do Norte.

Custos. “Nenhum dos proprietários históricos deseja se livrar desses imóveis, mas talvez eles se encontrem numa posição que torna isso necessário”, disse Moroello Diaz della Vittoria Pallavicini, presidente da Associação Italiana de Casas Históricas, em seu escritório num complexo do século 17 no Monte Quirinal, no centro de Roma.

“Nosso medo é que um estrangeiro seja menos cuidadoso e apegado à propriedade”, acrescentou ele. “Não cresceram aqui; a mansão não faz parte da história de sua família.” Apesar da renda relativamente baixa, os italianos sempre herdaram propriedades e foram beneficiados pelos baixos impostos prediais, algo que os ajudou a adquirir moradia ou investir no mercado imobiliário.

Em 2011, com o aprofundamento da crise financeira e a pressão sobre o governo para equilibrar o orçamento, o primeiro-ministro tecnocrata Mario Monti elevou os impostos prediais e deu início a uma reforma da metodologia de cálculo do valor dos imóveis.

Para os edifícios históricos, que tinham impostos baixos para compensar o alto custo de manutenção das construções de séculos atrás, os impostos prediais aumentaram em 20 ou 30 vezes, dependendo da localização do imóvel.

No caso de algumas construções, o imposto saltou de € 3 mil euros (cerca de US$ 3.400) em 2011 para € 75 mil (cerca de US$ 84 mil) em 2013. Talvez esse valor seja pouca coisa para os habitantes de castelos na Grã-Bretanha, mas o fardo é pesado para os italianos, especialmente em regiões onde o valor de mercado da propriedade e o turismo estão em baixa.

Para muitos daqui, a tendência é representativa da Itália como país preso entre a glória do passado e a dificuldade moderna em produzir um clima inovador capaz de garantir seu futuro.

As tentativas dos proprietários originais para superar as mudanças ficaram frequentemente aquém do objetivo.

Alguns proprietários italianos que compraram propriedades como forma de investimento as transformaram em hotéis de luxo, na esperança de compensar o alto custo de manutenção dos afrescos nas paredes antigas e dos imensos jardins italianos, que muitas vezes incluem hectares de bosques de oliveiras e vinícolas. Mas a demanda por férias de luxo não cresceu nos anos mais recentes, e alguns resorts receberam poucos hóspedes.

Houve época em que os 430m2 dos cinco andares  do castelo Tavolese, situado a 30km ao sul de Florença, abrigaram a nobre família Uberti, mencionada na Divina Comédia, de Dante, e depois a família Canigiani, cuja filha, Elena, deu à luz o ilustre poeta renascentista Francesco Petrarca.

O castelo do século 14 foi transformado num chique hotel que recebe casamentos. Mas, atualmente, faz anos que ninguém colhe os frutos das 5 mil oliveiras da propriedade, e a cama usada pelos recém-casados do verão passado continua por fazer. Os interessados em comprá-la vão precisar de € 18 milhões (pouco mais de US$ 20 milhões).

Mas atenção, candidatos: a vida da nobreza na Itália tem seu custo, que pode ser considerável até por alguns magnatas. Os novos proprietários enfrentam a mesma onerosa burocracia que os italianos para fazer alterações em muitas propriedades antigas, por menores que sejam.

De acordo com a lei italiana, o proprietário de uma construção histórica tem a custódia sobre ele, sendo obrigado a cuidar da manutenção, garantir a segurança e, em determinados casos, liberar o uso ao público. Os corretores disseram que muitos compradores interessados desistem das propriedades de grande valor histórico e mau estado de conservação por causa disso.

“É um problema para os possíveis investidores, que desejam confortos modernos como banheira, ar-condicionado ou um elevador”, disse Pallavicini, da Associação Italiana de Casas Históricas.

“Não vivemos mais como em 1800”, acrescentou ele. “Mas 99% dessas alterações são impossíveis ou extremamente complicadas e burocráticas numa construção histórica italiana.” Ao mesmo tempo, muitos dos 5.500 membros da associação prefeririam jamais vender suas propriedades, disse ele.

“São pessoas ligadas a esses edifícios por um cordão umbilical”, disse ele. “Talvez tenham sido criadas ali. Enquanto puderem resistir, ele não pensam em vender.” Mas, por mais que a venda seja difícil de engolir, muitas vezes a alternativa é o abandono, especialmente no caso dos castelos e monumentos localizados fora do roteiro turístico.

“Enquanto o proprietário de uma mansão na Toscana pode esperar que um comprador russo, britânico ou americano apareça para sanar as finanças de sua família, nós não podemos contar com isso”, disse Francesco Scardaccione, dono de um palacete histórico e duas propriedades rurais e presidente do escritório da Associação Italiana de Casas Históricas na região de Basilicata, sul do país.

“O que vai acontecer no dia em que não pudermos mais arcar com o custo?”, indagou ele.

Tradução de Augusto Calil

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