Obras inacabadas e problemas de estrutura desvalorizam Vila do Pan

07/08/2014 10:15

Preço do metro quadrado de imóveis da Vila caiu 0,3% em um ano.
Apartamentos foram construídos para abrigar atletas em 2007.

Cristiane Cardoso | G1, no Rio

A dois anos de sediar os Jogos Olímpicos, o Rio de Janeiro ainda lida com problemas que “sobraram” dos Jogos Panamericanos de 2007. Para quem comprou um dos 1.480 apartamentos da Vila do Pan, a dor de cabeça tem a forma de grades soltas, asfalto com afundamento e garagens com rachaduras.

Construídos a um custo de R$ 229 milhões para abrigar os atletas que participaram dos jogos, os apartamentos sofrem com problemas estruturais e obras inacabadas na Vila, que derrubam o preço dos imóveis. De acordo com o presidente da Associação de Condomínios da Vila Pan-Americana, Claudio Mecone, os apartamentos chegam a ser vendidos por R$ 5 mil o metro quadrado – metade de similares na Barra da Tijuca, bairro onde está a Vila.

“Na região, o valor cobrado pelos apartamentos chega a R$ 10 mil o metro quadrado. É praticamente o dobro”, diz Mecone. “Existe uma frustração generalizada.”

Segundo dados do Sindicato da Habitação (Secovi Rio), a situação não está mudando. Pelo contrário: nos 12 meses até junho, o valor do metro quadrado em uma das avenidas da Vila, a Cláudio Besserman Vianna, teve queda de 0,3%. Já os imóveis vizinhos ao condomínio, na Avenida Abelardo Bueno, subiram 8,1% no mesmo período.

Em todas as regiões da Barra da Tijuca, na Zona Oeste, houve valorização para a venda em julho de 2014, se comparado ao mesmo mês em 2013. As maiores altas foram na Vilas da Barra, na Rua Aroazes, com 14,3%, e na Associação Bosque do Marapendi (ABM), na Avenida Jornalista Henrique Cordeiro, 13,6% . Na análise feita pelo Secovi Rio, foram considerados apenas imóveis do tipo "apartamento-padrão", de um a quatro quartos.

Depreciação

O G1 percorreu o entorno da Vila do Pan e observou grades soltas e ausência de calçadas em alguns trechos (Foto: Cristiane Cardoso / G1)Em alguns trechos do entorno da Vila do Pan, há grades soltas e calçadas improvisadas (Foto: Cristiane Cardoso/G1)

Depois dos Jogos Panamericanos, os apartamentos da Vila do Pan, distribuídos em 17 edifícios, foram vendidos por valores entre R$ 97 mil a R$ 390 mil, segundo a Caixa Econômica Federal.

A autônoma Jane Nóbrega comprou um dos imóveis, de dois quartos, por R$ 239 mil, em 2008. Ela vendeu o apartamento há três meses por R$ 385 mil para investir em um negócio e diz que não conseguiu o “valor que ele valeria, se comparado com os outros na região”.

“Foi depreciado sim. Eu fico com tristeza no coração porque o Pan é um empreendimento maravilhoso. Podia ter conseguido uns R$ 550 mil no meu apartamento, porque a planta é muito boa. As pessoas falam que o Pan está caindo, mas não é verdade. O entorno que é o problema”, conta.

Segundo Jane, a Defesa Civil esteve no prédio em 2013, quando surgiram rachaduras em uma das garagens. “As coisas se depreciam por conta desses boatos. O problema do Pan é o entorno da rua. A Defesa Civil nunca constatou algo que pudesse colocar em risco ninguém ali”, afirma.

Na época, a Defesa Civil informou que não havia risco iminente de desabamento, mas, do lado de fora, o terreno estava cedendo e havia danificado as áreas do entorno dos prédios. Uma empresa de engenharia contratada pela prefeitura fez as obras de recuperação apenas em um trecho da rua principal, uma área pública. A Agenco, responsável pela construção dos prédios, faliu, e, segundo o Ministério Público, a empresa é ré em dois processos na Justiça desde 2009.

Problemas

Uma fita isola uma buraco no meio da calçada. Dele, é possível ver o encanamento do entorno da Vila (Foto: Cristiane Cardoso / G1)Uma fita isola uma buraco no meio da calçada. Dele, é possível ver o encanamento do entorno da Vila (Foto: Cristiane Cardoso/G1)

O G1 percorreu o entorno da Vila e observou grades soltas, que não chegaram a ser instaladas ou que foram retiradas devido ao afundamento do asfalto da rua, segundo o presidente da associação. Também notou asfaltos desnivelados, tapumes no lugar de grades, calçadas com rachaduras e trechos com calçadas improvisadas.

A área esportiva prometida no lançamento da obra, em 2005, também não foi entregue, segundo Claudio Mecone. Ele diz, no entanto, que a desvalorização dos imóveis é exagerada.

“É claro que os problemas estruturais viários e as obras inacabadas desvalorizaram os imóveis. Antes de vir para cá, eu tinha um preconceito com a Vila. Tinha um boato que ficou abandonado, mas o que se fala é muito pior do que realmente é”, completa.

Licitação

No meio de uma das principais ruas da Vila, o asfalto, que cedeu e foi reparado pela prefeitura está desnivelado (Foto: Cristiane Cardoso / G1)No meio de uma das principais ruas da Vila, o asfalto, que cedeu e foi reparado pela prefeitura está desnivelado (Foto: Cristiane Cardoso/G1)

Mecone está à frente da negociação com a Prefeitura do Rio para as obras de estrutura viária desde 2012, quando ocorreram novos afundamentos. No dia 18 de julho de 2014, foi aprovado o projeto de lei 77/2014 que autoriza a Prefeitura do Rio de Janeiro a contrair empréstimo de R$ 100 milhões para execução das obras da Vila Pan-Americana, dentro do Programa de Financiamento à Infraestrutura e ao Saneamento (Finisa).

Segundo a publicação, os recursos “têm como finalidade a execução de obras de melhoria da infraestrutura urbana da Cidade do Rio de Janeiro com a estabilização geotécnica e a implantação de vias localizadas em área vizinha ao Parque Olímpico”.

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